Por Antonio Ximenes

Rios Solimões, Amazonas, Uatumã, Juruá e céus da Amazônia. Uma expedição de luz pelos olhos de Jorge Bodanzky e sua equipe. De 13 de setembro a 2 de outubro de 2008, a Oscip Navegar Amazônia singrou as artérias fluviais da maior bacia hidrográfica do planeta. A bordo do barco Sebastião Borges, nas asas de um Grand Caravan, em “voadeiras” e por trilhas no meio da mata, cinco homens e duas mulheres ofereceram a oportunidade para que comunitários de quatro unidades de conservação (Mamirauá, Catuá-Ipixuna, Uatumã e Uacari) registrassem o cotidiano de suas vidas através de oficinas de vídeo e de fotografia.
Aiucá, às margens do Solimões; Bela Conquista, um braço do mesmo curso d’água, na RDS Catuá-Ipixuna; Maracarana, no rio Uatumã, que deságua no rio Amazonas; e Bauana, na calha do rio Juruá foram as localidades que receberam os narradores da luz, na maior floresta tropical do planeta. O que conheceremos a seguir são fragmentos desta aventura humana que, mesmo em pleno século XXI, não se furtou a registrar cenas de práticas centenárias das populações tradicionais que vivem nos rincões mais longínquos de um “Brasil-Caboclo”, que insiste em resistir ao abandono, ao esquecimento e à falta de ternura de um Estado que tem dificuldade de olhar nos olhos desta “gente verde” , que enfrenta doenças, distâncias de dias de navegação, feras e a ausência de políticas públicas sem perder o sorriso nos lábios, deixando à mostra, invariavelmente, os pouco dentes que lhes restam.
Durante a expedição, a rebeldia de quem sabe que a floresta lhes pertence mostrou-se com nitidez nas lentes das câmeras. Quem tiver o cuidado de observar atentamente os personagens desta saga perceberá uma luz atravessada emanando de um povo que domina os mistérios da natureza e que tem a dimensão de sua importância, em um momento em que a humanidade paga caro pela agressão ambiental.
Os caboclos e ribeirinhos sabem que, se nada for feito hoje, agora, imediatamente, o que é biodiversidade, cultura, fauna, flora e até mesmo civilização pode se transformar em um triste capítulo de destruição na história da humanidade. “Nós fazemos o que podemos, mas os problemas que enfrentamos são maiores que os recursos que temos. O Estado não pode continuar tão longe da gente e da floresta”, com essas palavras Zagaia, líder da comunidade de Bela Conquista, sintetiza o drama do povo da floresta e dos rios.
A luta para frear o avanço da destruição é árdua. No horizonte se vê fumaças, peixes sumindo dos rios, homens e mulheres tombando com malária, falta de saneamento básico, ausência de médicos, poucas escolas, transporte insuficiente, habitações rudimentares e a contínua extinção de espécies. No centro do “mar verde”, resistindo com sua sabedoria, o caboclo, personagem central da expedição Navegar Amazônia, em dezenove dias de surpresas e fascinação.
RDS UACARI, NO MÉDIO JURUÁ, MUNICÍPIO DE CARAUARI
Depois do conforto do Sebastião Borges, onde a vida é mais confortável do que nas comunidades visitadas (uma infra-estrutura a bordo que conta com pão caseiro diário, cabines e sala de trabalho climatizadas, alimentação balanceada, refrescantes duchas e uma tripulação à disposição), a equipe de Bodanzky deixou a calha do rio Uatumã. Foram sete horas de navegação, da comunidade Maracarana até o porto improvisado de Morena, no município de Presidente Figueiredo. Cuidadoso com seus passageiros, o comandante Almir determina que a tripulação cuide do desembarque das bagagens. Rapidamente, redes, câmeras, máquinas fotográficas, tripés, computadores…estavam sobre o barranco, onde uma Van com capacidade para 11 lugares aguardava a “troupe”. Seu Wilson, o motorista, acomodou os volumes no apertado bagageiro e quando se preparava para partir, Beto Lacerda, executivo do Navegar Amazônia lembrou que havia algumas latas de cerveja na geladeira do barco. “Vamos buscar esta munição”, disse ele, provocando gargalhadas na equipe. Beto, como é conhecido, tem como uma das suas principais características o bom humor. Cerveja embarcada, pé na tábua. Pela frente, 36 quilômetros de chão batido e 12 pontes de madeira. Após muitos buracos, lama e solavancos chegamos à hidrelétrica de Balbina.Três horas e quarenta e cinco minutos depois de sair das águas do rio Uatumã, chegamos a Manaus. Exaustos, mas felizes, os membros da equipe são acomodados no Hotel Talissa.
Na manhã seguinte, após o café, por volta das 10h30, os sete membros da expedição, acompanhados por Laura e Ricardo da agência Isobar e o jornalista Otaviano, do Bradesco, o Banco do Planeta, visitam a sede da Fundação Amazonas Sustentável, no Parque Dez. Descansados e animados, são levados para almoçar no restaurante Palazzolo. Picanha e peixe Tambaqui dominam o cardápio. Após a refeição, o grupo se dividiu, e Laura, Ricardo e Otaviano ainda ficaram algumas horas na cidade antes de retornar a São Paulo. Bodanzky e equipe acompanharam o jornalista Ximenes até o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, de onde embarcariam para Carauari.
Na pista, um Grand Caravan, pilotado pelo experiente “Manequim” aguardava o embarque. Às 15h30, após um atraso de uma hora e meia, provocado pela espera de equipamentos que embarcariam para a comunidade do Bauana, na RDS de Uacari, o comandante gritou: “Gente, não posso esperar mais. Vamos decolar.Corremos o risco de não conseguir pousar no Aeroporto de Carauari (os pousos somente podem ocorrer das 16hs às 18h30. A pista está interditada nos outros horários, em função da presença dos urubus)”.
Manequim trabalhou vários anos nos garimpos de Roraima. Daqueles tempos de fartura, restou uma pepita do tamanho de uma moeda de um real, que carrega em um cordão em volta do pescoço. “ Dá sorte e traz boas lembranças”, diz.
A bordo, o médico Luiz Leite e a técnica de enfermagem Ivone Fonseca da Costa se incorporam à equipe, ao todo 11 pessoas. Jorge Bodanzky, que além de cineasta e velejador também é piloto amador, instala-se no lugar do co-piloto. Ao invés do manche, ele empunha uma câmera “Eu sou brevetado”, diz ele, entusiasmado com a viagem. Nos assentos de trás o fotógrafo Jorge Vismara e o cinegrafista e editor Jorge Pennington também empunham suas ferramentas de trabalho.
Pela janela, descortinam-se rios sinuosos, a floresta em todo o seu esplendor, nuvens carregadas, um céu que fazia arder os olhos pelo azul e o sol. “É um tapete verde” diz Vismara, apontando para a floresta com sua Canon. Pennington registra tudo com sua câmera. No fundo da aeronave, o médico conta histórias de remoções de pacientes em situações de alto risco. A atriz Vicky Justiniano e Beto Lacerda ouvem atentamente as façanhas do profissional de saúde, que fez dos atendimentos aeromédicos a sua principal atividade. Ralph, o coordenador das oficinas de vídeo, fotografa pela janela. Alice Bodanzky sente-se bem e também fotografa. O jornalista Ximenes observa e pensa em seus filhos (Jordi, Francisco,Maria Clara, Antonio Miguel e Mariana). “Como gostaria que eles estivessem aqui, vendo a floresta”.
Atento às mudanças das nuvens, o comandante Manequim anuncia que vem chuva; e chuva, na alta floresta, é sempre motivo de preocupação, quando se está em uma pequena aeronave a 3.200 metros de altitude. De repente, uma rajada de vento seguida de uma forte chuva mudou o semblante dos passageiros. Mas a habilidade de Manequim “falou” mais alto, tranqüilizando a todos. Jorge Bodanzky, Alice , Vismara, Ralph e Pennington filmavam e fotografavam . Vicky e Beto observavam a cena, já o médico e a auxiliar de enfermagem, acostumados às mudanças abruptas do clima nos céus da Amazônia, conversavam animadamente. O jornalista, em silêncio, aproveitou para fazer uma oração, nunca é demais nessas horas.
Quinze minutos depois o tempo abriria novamente e uma sensação de paz tomou conta do Grand Caravan, que seguia em frente rumo a Carauari. Êxtase. Esta é a palavra. Êxtase, este era o sentimento geral dentro da aeronave. As 18h35,portanto cinco minutos além do permitido, aterrissamos.Rapidamente, Manequim retira as bagagens e anuncia que está de partida para Tabatinga, onde “pegaria” um paciente que seria transportado para Manaus, razão pela qual o médico e sua inseparável auxiliar estavam a abordo.“Boa filmagem!” gritou Manequim, despedindo-se da equipe. Dez minutos depois Bodanzky e a “troupe” embarcavam na carroceria de uma possante caminhonete em direção ao Hotel Tatiana.
Instalados em pequenos apartamentos climatizados, os “expedicionários da imagem” não imaginavam que ainda teriam que navegar oito horas subindo o rio Juruá, com o sol a pino até chegar no igarapé do Bauna, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Uacari, onde seriam realizadas as oficinas de vídeo e fotografia. Mas esta é outra parte da viagem, que, aos poucos, mas sempre, como quem navega em uma canoa artesanal, vamos contar. Acompanhe-nos. Você é o convidado especial do Navegar Amazônia.





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