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Navegar Amazônia

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O Navegar Amazônia estava lá para registrar o surfista Serginho Laus quebrar seu próprio recorde de permanência na crista da onda de rio mais longa do mundo. A bordo estava a ambientalista canadense Genevieve – representante da EcoMaris, de olhar e ouvidos atentos à força e ao ronco da pororoca quebrando as margens do Araguari; e a imaginação e o espírito se afinando cada vez mais com os sonhos do coordenador do Navegar, Belo Lacerda, de levar às comunidades ribeirinhas uma terceira margem: a cidadania: através da arte e da inclusão digital. Um sonho que a cada nova milha navegada se fortalece mais como um dos mais criativos e importantes projetos de inclusão social desenvolvidos no Brasil, que já representou a informática pública do nosso país por duas vezes, em 2001 em Otawa, no Canadá, e em 2002 em Havana, Cuba. Em 2005 o Navegar Amazônia foi escolhido como Ponto de Cultura pelo Minc, o único ponto itinerante fluvial do Brasil.

Genevieve estava no Pará conhecendo o trabalho que três jovens engenheiros florestais de nível médio começavam a desenvolver na comunidade do Cupuaçu, no município de Barcarena, com o açaí BRS, desenvolvido pela Embrapa, que tem, entre outras, a vantagem de poder ser plantado em terra firme e de ter uma produção vinte por cento melhor que o açaí nativo, além de produzir o ano inteiro, enquanto este produz de seis em seis meses (leia mais sobre o assunto no boxe2). Uma novidade que promete mudar a vida das oitenta famílias da comunidade, que a cada seis meses é obrigada a procurar pequenos bicos em Barcarena ou Vila dos Cabanos para garantir a sobrevivência.

E foi navegando pela internet que Gene, como os brasileiros preferem chamar a moça, descobriu o Navegar. Convidada a ir a bordo, não perdeu tempo: pegou mochila e cuias e embarcou no projeto, seguindo o exemplo de outros tantos militantes das artes e da promoção da cidadania – entre eles Jorge Mautner, para singrar os rios amazônicos e conhecer o que se faz em suas margens.

A expedição foi batizada de Encontro das Águas. Das águas barrentas dos rios da Amazônia com as águas dos milhares dos lagos do Canadá. Águas conduzindo a melhor das energias: a que produz mudanças no espírito e na consciência humanas: a combinação da arte com a educação.

A caminho ao BailiqueP1000350.jpgE os espíritos das águas mandaram uma chuva fina abençoar a partida do Pasco Nunes, sua tripulação e os expedicionários: sete jovens canadenses, estudantes do nível médio, se preparando para entrar na universidade; três jovens paraenses, engenheiros florestais de nível. Dez jovens, um grupo com um diferencial importante: de serem, no futuro, profissionais preparados para gerar um consumo mais consciente dos recursos limitados dos planetas e da necessidade de se buscar alternativas sustentáveis para o desenvolvimento das sociedades. Três dessas experiências os jovens estudantes iriam conhecer na Amazônia: a Escola Bosque do Bailique (AP), o projeto de plantio do açaí de terra firme desenvolvido pelo grupo ICA na comunidade do Cupuaçu, em Barcarena (PA) e o projeto de Ecoturismo desenvolvido pela ong Peabiru no município de Curuçá (PA). E também o trabalho de arte educação desenvolvido pelo fotógrafo Miguel Chicaoca, em Belém, através do Foto Ativa.

Primeira parada, comunidade de Vila Progresso, no arquipélago do Bailique.

Há dez horas de barco de Macapá, Vila Progresso é uma comunidade cuja a tônica da vida é o equilíbrio. O equilíbrio sobre as frágeis pontes de madeira, que são as ruas do lugar; da sobrevivência com a preservação do delicado ecossistema do arquipélago que dá o alimento e as matérias-primas que são usadas na Escola Bosque, como material didático.

Com professores da Escola Bosque, Bailique/PAP1000228.jpgA Escola Bosque do Bailique é sem dúvida um dos projetos de educação para o desenvolvimento sustentável de maior alcance no Amapá. Na escola, que tem novecentos alunos, a natureza é a mestra. A partir dela se estudam a matemática, geografia, a língua portuguesa (e os falares amazônicos) e estrangeira, a biologia, química e as tradições ribeirinhas, como a dança do Quatá, que é original do arquipélago e imita o jeito elegante e festivo do macaco quatá cortejar sua parceira.

Na quadra da Escola Bosque o primeiro encontro dos jovens de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, Montreal, com o universo físico e imaginário das crianças e jovens do Bailique. Uma festa, e nossos jovens expedicionários saem levando na bagagem suas primeiras lições dos povos da floresta: que todo movimento de mudança mundial começa com o conhecimento e ações locais.

Segunda parada: Belém.

Belém.Arrastão do Pavulagem, Belém/PAPróximo de chegar a Belém, a correia do motor do barco quebrou e o Navegar Amazônia ficou a mercê das ondas da Baía do Guajará. Uma situação enfrentada com espírito de aventura pelos jovens e grande perícia e profissionalismo pela tripulação.

Em terra firme, expedição conheceu uma cidade que se espicha pro céu em prédios modernos em contraste com as construções antigas e exuberantes do tempo da Belle Epoque amazônica, palco também de uma revolução verdadeiramente popular: a Cabanagem, feita pelos caboclos ribeirinhos, liderados por Eduardo Angelim, no começo do século XVII, contrários à república e desejosos de um governo popular.

E Belém estava lá, de braços abertos, às quatro horas da manhã para mostrar o colorido das vozes na Feira do Açaí, com os barcos chegando das ilhas, carregados de paneiros com este fruto que a licença poética nos permite dizer que é o sangue da Amazônia, que sustenta a vida de centenas de famílias ribeirinhas, entre elas às da comunidade do Cupuaçu, nossa próxima parada.

A comunidade de Cupuaçu

O barco ancorado no rio CupuaçuRio Cupuaçu, PANa comunidade do Cupuaçu, que começa na boca do furo Arrozal e segue margeando o igarapé que dá nome a localidade até chegar às proximidades de Vila dos Cabanos, vivem cerca de oitenta famílias, espalhadas em pequenos sítios. Ali o forte da economia é o açaí, colhido entre os meses de setembro a dezembro nos campos alagados.

P6102925.JPGElodie com crianças de CupuaçuNessa comunidade os jovens do grupo ICA encontraram solo propício para a implantação de seu projeto de manejo do açaí BRS: terras altas, muito sol e a disposição da comunidade em mudar seu modo de vida, apostando no cultivo de um açaí que dá frutos o ano inteiro, e tem valor comercial vinte por cento maior que o açaí nativo.

Na roça, aberta no meio da floresta sem queimadas nem derrubadas desnecessárias, vicejam cento e setenta pés da revolucionária palmeira, com seus espigões de folhas verdes enchendo de esperança de uma vida menos dura àquela comunidade que nos tratou com festa e cerimônia durante os quatro dias de permanência da Expedição naquela margem de igarapé.

Quarta parada: Curuçá.

De Barcarena a Belém fizemos uma viagem tranqüila, mas, ao chegar a capital paraense fomos recebidos por um toró daqueles, de ventos fortes que fizeram o barco balançar, dificultando nossa atracação na Estação da Docas. Ali nos despedidos do Paco Nunes, pois nossa próxima parada seria às margens do mar, água por onde o nosso barco, projetado para singrar as águas do rio, não navega.

Barcos de pescadores, Abade/PACuruçá é uma cidade de 352 anos. Fundada pelos portugueses, a cidade tem ares litorâneo, o sol é generoso e a população bastante hospitaleira. Os casarões antigos dão um charme todo especial à cidade que em agosto de 2007 teve como capa da revista Brasileiros a história da vida de um de seus personagens mais ilustres: Seu Cristóvão – pescador de profissão, que conhece o mar e os mangues daquela região como sua própria vida. A matéria também trás um alerta para o fato de que o futuro de pescadores artesanais como Seu Cristóvão estão ameaçadas. O motivo: a MMX, com apoio do Governo do Brasil, pleiteia construir ali um porto para escoamento de minério. Mas não um porto qualquer, mas simplesmente o maior da América Latina e o terceiro maior do planeta.

Pesca artesanal.A praia da Romana.Em Curuçá está localizada a Resex Mãe grande que abriga os mangues da região e a ilha de Romana. Ali cerca de duas mil famílias que tiram seu sustento do mar e dos mangues.

E foi para conhecer a reserva e o projeto de ecoturismo que o Instituto Peabiru começa a desenvolver na região, que os canadenses enfrentaram duas horas e meia de viagem num ônibus de urbano – a empresa que explora a linha nos fez trocar o ônibus semi-leito por um de linha urbana, com os passageiros disputando espaço com suas bagagem.

Charles Cardoso,pescador e guia turística ambiental.O projeto, que tem o patrocínio da Petrobras, propõem o ecoturismo como um caminho natural para o desenvolvimento do município, capacitando os jovens da cidade e os pescadores como guias turísticos e instrutores ambientais.

Pela forma como a expedição foi recebida e o tanto de conhecimento adquirido nas trilhas pelas matas, nas praias e mangues do litoral, dão dicas de que este é sem dúvida um projeto de futuro.

Nos passeios pela cidade, uma aula de história pelas ruas antigas e de tradição popular na apresentação de danças típicas feita por um grupo local que emocionou brasileiros e canadenses e fez todo mundo dançar no ritmo do carimbo. Outra aula foi a da biodiversidade do lugar, dada pelos pescadores nas trilhas, praias e mangues.

No final ficou a vontade de querer voltar, um forte indicador de que o ecoturismo pode ser uma saída econômica para o desenvolvimento de Curuçá, sem risco de impactos sócio-ambientais que o projeto de construção do Porto Espardate pode causar à região, segundo a avaliação dos biólogos e sociólogos do Peabiru.

No fim da expedição, a confirmação de que, para quem quer mudar o mundo, não há fronteiras, nem barreiras culturais e que iniciativas como do Navegar Amazônia e da EcoMaris fortalecem uma rede forte e atuante de artistas, ambientalistas e formadores de opinião, como os jovens canadenses e brasileiros, futuros profissionais na construção de uma terceira margem às comunidades ribeirinhas amazônicas: a cidadania.

[Fotos: Gavin Andrews/Navegar Amazônia]


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