“Se antes de morrer, me fosse concedido o privilégio da derradeira viagem, voltaria ao Rio Negro mais uma vez. Viajaria de Manaus, rio acima, até São Gabriel da Cachoeira e, se possível, mais longe, na direção da Colômbia. Quinze dias, vendo o mundo refletir-se no espelho das águas escuras do rio, o recorte das margens verdes no horizonte, os papagaios no alvorecer e as circunvoluções arrojadas das andorinhas todo final de tarde”. (1)
![]()
![]()
Essas palavras não são minhas, mas do Drauzio Varella, com quem eu e o Jorge, a convite dele e da UNIP, percorremos o Rio Negro durante quatro dias e não quinze, como seria desejável. Como ele, vimos o mundo refletido no espelho das águas escuras do rio e o rendilhado da floresta no horizonte. Com ele, ouvimos a algaravia dos papagaios de manhãzinha e os vôos mirabolantes das andorinhas ao entardecer.
Mas essa não foi uma viagem bucólica, ou meramente telúrica. A “expedição”, uma entre muitas nos últimos anos, tem finalidade científica: alimentar o Projeto Parcelas Permanentes, que tem o Rio Negro como cenário na busca de novos medicamentos, projeto conduzido pela UNIP, com apoio da FAPESP. A bordo de um barco regional, muito parecido com o nosso Navegar, denominado “Escola da Natureza”, uma equipe de jovens pesquisadores (os incansáveis Mateus Paciência e Sérgio Frana), sob a coordenação do Drauzio, conduz estudos botânicos e colhe plantas pertencentes a determinadas famílias para a preparação de extratos. Posteriormente, nos laboratórios da UNIP, em São Paulo, esses extratos são separados e testados contra linhagens de células tumorais, para identificação de possíveis propriedades antineoplásicas. (Será que num dia próximo teremos um antídoto contra o câncer?)
![]()
![]()
Estavam ainda presentes o jornalista Augusto Nunes, diretor editorial da Cia Brasileira de Multimídia (CBM), novo conglomerado que envolve o Jornal do Brasil, a Gazeta Mercantil, a Editora Peixes, a Casa Brasil a JB TV e a revista Isto é, o competente Wilson Malavazi, coordenador das UNIPs de São Paulo, Manaus e Angra dos Reis, os pesquisadores Mateus Paciencia e Sérgio Frana, e a fotógrafa Christiana Carvalho.
O mateiro Luiz Coelho, o simpático seu Luiz, é um caso à parte, uma espécie de ícone do grupo todo. Funcionário aposentado do INPA, ele mora em Manaus e trabalhou com os botânicos mais importantes do Brasil e do exterior que, ao longo de décadas, visitaram a floresta amazônica. Ele é representante de uma geração quase extinta de botânicos práticos. Em todos os pontos da mata, seu Luiz parece capaz de identificar qualquer família de planta, muitos gêneros e até espécies, com precisão. E é ouvido com respeito e consideração por toda a equipe. Infelizmente, seu Luiz não pode mais percorrer as matas, devido à má “aerodinâmica das pernas” (sic), seqüela de um AVC que o vitimou recentemente.
![]()
As comidas deliciosas, cafés da manhã dignos de um hotel cinco estrelas e almoços muito refinados, estiveram a cargo de Cíntia e Vera que, no barco, de 7 a 11 de março, tornaram nossa permanência tão agradável.
Registramos oito horas e meias de imagens e depoimentos. Esse material está sendo trabalhado por nós, a fim de que possa rapidamente ser inserido no site do Navegar e do Drauzio Varella, entre outros.
Conhecer o Rio Negro, um dos três maiores rios do mundo, foi de uma emoção e beleza indescritíveis. Curtam comigo, então, a galeria de fotos que o Jorge organizou para a coluna Papo na Rede, do Navegar.
Espero um dia, poder voltar ao Rio Negro, embora saiba de antemão que nós nunca entramos duas vezes no mesmo rio, porque o rio nunca é o mesmo, nem nós o somos, como afirmava Heráclito…
(1) Extraído do livro Florestas do Rio Negro, São Paulo, Companhia das Letras: UNIP, 2001, coordenação de Drauzio Varella.






