Conhecer a Amazônia, para quem sempre viveu em cidades cosmopolitas, é uma experiência inimaginável. Um rio que não é bem um rio, mas um mar tempestuoso, com suas leis próprias a nos ensinar a paciência. Uma floresta verde esmeralda a exalar suspiros e sugerir mistérios para muitos de nós indecifráveis.
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Essa experiência me foi proporcionada pelo Navegar Amazônia, projeto de Jorge Bodanzky e Beto Lacerda que, um belo dia de 1996, olhando os barcos que cruzavam os rios de Macapá, se perguntaram o que seria equipar uma dessas embarcações com acesso à internet.
Para ver o sonho se tornar realidade, tiveram que esperar quatro longos anos. Primeiro, aguardando os avanços da própria internet e depois à espera de financiamento para concretizar esse sonho. O barco navegou durante exatos dois anos, apoiado pelo governo do Amapá, dando apoio principalmente às ações desenvolvidas pela Escola Bosque, no Arquipélago do Bailique.
Com a mudança de governo, o projeto teve que ser interrompido e seus idealizadores, a fim de protegê-lo, resolvem transformá-lo numa OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). Em setembro de 2005, apoiado pelo MinC, o barco foi reinaugurado e a partir de então não cessou mais de expandir suas ações pela Amazônia.
O Navegar Amazônia é basicamente um projeto de comunicação. Com uma estrutura simples, comum a todas as embarcações regionais, ele possui no segundo andar um moderno laboratório multimídia, equipado com computadores, laptops, ilhas de edição, filmadoras digitais, etc., ligados à internet com banda larga via telefonia celular.
O projeto nos mostra quão dessemelhante é este nosso Brasil, como são frágeis as certezas que construímos durante décadas, só para evitarmos a verdade abissal de que não conhecemos a nossa terra, a nossa gente.
A primeira desconstrução: a paisagem majestosa não dilui o homem, antes o realça. Para sempre na retina e na memória as figuras, entre outras, do velho Verequete (mestre do carimbó) e de Deusa, líder comunitária a nos decifrar códigos dos negros para se comunicarem sem que os patrões percebessem. Contra tudo e contra todos, uma cultura da resistência, eles que são remanescentes de quilombos e guardiães de verdades ancestrais.
Longe de tudo, é verdade, mas perto do coração selvagem da mata, das águas, da gente mesma, as populações ribeirinhas na Amazônia vivem a partir de um código próprio, com mais ternura e solidariedade.
Ao longo da viagem fomos brindados com emoções indescritíveis: na calada da noite, numa comunidade ainda sem luz elétrica, uma ladainha em latim. Durante o dia, uma alegre teatralização do Bumba-meu-boi.
Também inesquecível foi a interação entre os viajantes e a população ribeirinha: Jorge Mautner falando de Platão e Aristóteles, as aulas de história da arte do Dario Chiaverini, 23 anos professor da FAAP que, no chão do barco, em meio a mães e crianças traçava um panorama da arte, desde as pinturas rupestres até a arte moderna para espectadores absolutamente silenciosos e comovidos. A menina de sete anos, que na aula de cinema e vídeo do Evaldo Mocarzel e do Bodanzky de repente focalizou uma casinha no meio do rio, entre as árvores e disse: – Não quero que a minha cidade seja conhecida como a cidade da cachaça. Ela é a cidade que tem casinhas bonitas, no meio do rio.
Lembro-me a toda hora de um punhado de menininhas lindas e cheirosas, que não me deixou um só minuto, nos dois dias em que estivemos em Tauera-açu, entre elas a Aelen, cinco anos, o mesmo jeitinho calmo e bom da minha neta Letícia. Elas estavam muito impacientes com as músicas apresentadas e de repente disseram a mim e ao Nelson Jacobina: – Nós não gostamos disso, gostamos mesmo é do tecno-brega e sem nenhum traço de inibição, cantaram para nós, afinadíssimas: a lua me traiu e outras do mesmo naipe…
Veja no contexto original: Terra Magazine




