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A Tiração de Folia. Foto: Mario MirandaNo Trapiche Municipal de Abaetetuba da Justo Chermont, onde o Navegar Amazônia está atracado, as noites, a partir das 19h, estão sendo marcadas pelo encontro de artistas e de pessoas interessadas em cultura e arte. E a música e o cinema foram as grandes atrações das duas últimas noites. Somando-se ao elenco do Navegar Amazônia, que trouxe ao município artistas de renome nacional (Jorge Mautner e Nelson Jacobina) e regional (Zé Miguel), compositores como Luiz do Nilamom, Ney Viola e Cabinho, que fazem a boa música popular abaetetubense, abrilhantaram na quarta-feira (08) o encontro de música promovido pelo Navegar Amazônia.

O evento foi aberto com a encenação da “Tiração de Reis” – manifestação cultural com as mesmas características da “Folia de Reis”, que acontece entre 3 e 6 de janeiro em vários Estados brasileiros. As ladainhas da “Tiração de Reis” são executadas pelo grupo musical Grasom, com instrumentos de corda e percussão.

Luiz do Nilamom, que antes visitara o Navegar Amazônia, deixando gravado algumas das peças que compõem o seu repertório, fez sua participação no encontro. Cabinho mostrou sua especialidade e identidade com o chorinho e o samba – sobretudo o samba, na linha evolutiva do extraordinário samba escrito por Paulinho da Viola. Cabinho, inclusive, é vencedor de alguns festivais de música pelo Brasil. Ney Viola, que recebeu o Navegar Amazônia na chegada, apresentando suas composições no coquetel oferecido pelo Restaurante JB, repetiu o que chamara à atenção dos músicos integrantes do projeto: a música com a cor, o aroma e o sabor de Abaetetuba. O encontro apresentou também o trabalho do amapaense Zé Miguel, que cantou “Pérola Azulada” – música gravada pelos paraenses Nilson Chaves e Marco Monteiro.

Jorge Mautner e os Reis MagosE, para fechar o encontro musical, o violino de Jorge Mautner e o violão de Nelson Jacobina juntaram-se à caixa-de-marabaixo do Zé e o pandeiro-de-tiração do Capacete, executando o “Maracatu Atômico”, a canção que seduziu Gilberto Gil e Chico Science em épocas e movimentos de um Brasil diferente. “O Navegar Amazônia é uma parceria, uma troca de informações, uma maneira de integrar essa criatividade efervescente do Brasil na Amazônia, e isso é o máximo!”, declarou o compositor Jorge Mautner.

Iracema na noite de Abaetetuba

Foto: Mario MirandaO Navegar Amazônia, que também vem realizando oficina de cinema, na quinta-feira (09) aproveitou para fazer a exibição do filme Iracema, uma transa amazônica (Brasil-1974), do cineasta Jorge Bodanzky – e um dos idealizadores do projeto Navegar Amazônia.

Rodado na Amazônia, em plena ditadura militar (Médici era o presidente, e o mais truculento deles), a obra cinematográfica com os personagens Iracema (Edna de Cássia) e Tião Brasil Grande (Paulo César Pereio) enfiados na boléia de um caminhão, percorrendo a recém construída Transamazônica, inaugurava, naqueles anos difíceis, o cinema verdade no Brasil. Desafinando “o coro dos contentes” que cantava a Transamazônica como a redenção do Brasil, Bodanzky mostra, em seu filme, imagens terrivelmente verdadeiras da maior floresta do planeta sendo desmatada e incendiada e os problemas sociais (trabalho escravo, prostituição infantil etc.), que, mesmo depois de passados 32 anos, atingem a região e, às vezes, parecem irreversíveis à exemplo de crimes bárbaros que ensangüentam a floresta, como os que tiraram a vida dos ambientalistas Chico Mendes (Acre - 1988) e irmã Dorothy (Pará - 2005).
Proibido no Brasil durante seis anos no regime de exceção, a obra é lançada agora em DVD e oportuna para o momento do Navegar Amazônia nessa expedição.

O evento, contemplado pela janela de acrílico do Navegar Amazônia, de onde escrevo esta matéria, lembra cenas emocionantes do Cinema Paradiso. Lá embaixo, os cineastas Jorge Bodanzky (ao lado de Márcia) e Evaldo Mocarzel; os músicos Jorge Mautner, Nelson Jacobina e Zé Miguel; os fotógrafos Dario Chiaverini e Mario Miranda; a equipe permanente que dá sustentação ao projeto; a produtora Célia Maracajá; o prefeito de Abaetetuba, Luiz Lopes (PT), e uma gama de artistas e simpatizantes da arte do lugar que produz cultura da boa e a mais brasileira, famosa e gostosa bebida da Amazônia: a cachaça de Abaeté. Tim-tim!


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