(…) Oh virgem mãe amorosa! Fonte de amor e de fé,
dai-nos a benção bondosa, Senhora de Nazaré.
Nas margens do Rio Serraria Pequena onde vive a comunidade que recebe o mesmo nome do rio, encontramos a Sra. Gimina Nunes Lacerda - “Dona Gitoca” como carinhosamente é chamada, com 92 anos de idade. Matriarca da família onde aproximadamente 40 anos acontece a manifestação religiosa em homenagem à Virgem de Nazaré, santa padroeira do povo paraense, que na cidade de Belém do Pará acontece o Círio de Nazaré, a maior festa religiosa da região Norte do Brasil.
Devota da santa, na sua juventude acompanhava as festas em Belém, onde, às vezes, levavam em média dois dias em canoa a vela, indo pela costa (água oceânica) para chegarem a cidade para acompanhar a manifestação, que hoje, com o avanço tecnológico gasta aproximadamente 18 horas, em barco a motor diesel.

Moradora nas margens do rio, ou seja, ribeirinha, ajudava seus pais na labuta do dia-a-dia, seja na lida com as plantações (hortas, frutíferas, fitoterápicos, jardinagens), nas criações (galinhas, porcos, gados), coisas da casa (cozinhar, lavar e passar) ou na sobrevivência financeira como extrativista, coletando sementes (caroços) de muru-muru e outras oleaginosas, como andiroba, seringa, para serem vendidas a atravessadores, nos regatões e/ou navios estrangeiros, além da extração da madeira e seu beneficiamento, cultura iniciada por seu avô - Sr. Aprígio Peres Nunes - que passando às gerações seguintes com seus pais - Manoel Peres Nunes (papai Nelzinho) e Francisca Ferreira Nunes (mamãe Chiquinha).
Embalada pelos ritmos mitológicos e as histórias lendárias da Amazônia, pela oralidade, recebia os saberes, e, numa mistura entre fato e fantasia, aplicava na vida. Em conversa informal, Dona Gitoca nos falou da cobra grande (sucuriju) que aparecia nas margens do rio devorando os animais; dos jacarés - seu maior medo -, que nos períodos de maré alta surgiam nas margens causando grandes perdas, entre elas, de entes queridos. Além de outros como a “cabeça de fogo”, elemento fantástico que não soube detalhar, mas que afirma ter visto. Sabe, porém, através de outras narrativas (de pessoas amazônidas), que são tochas de fogo que aparecerem e desaparecem nas bocas e fundo do rio assustando as pessoas, como também o “boto” que encantou uma moça conhecida e a engravidou, na qual deu à luz um ser metade humano e metade peixe, que posteriormente morreu. Para se proteger do boto, tomava o cuidado de jogar ervas e essências na casa, contudo, lembrou que quem quisesse a presença dele, preparava-se perfumando-se.
E assim, juntos com seus pais e os irmãos Flaviana Nunes Larceda e João Peres Nunes (in memorian), vivem o cotidiano do povo ribeirinho amazônida. Casou-se e constituiu família, na união com José de Souza Larceda gerou os filhos Álvaro, Raimundo, Maria e Francisca, deu continuidade em sua maneira de vida e costumes. Maneira essa que tem sua base alicerçada pelos valores da família, da fé (religião) e do respeito aos costumes e manifestações do seu povo.
Nesses valores, movida pela fé, onde Dona Gitoca buscava apoio para os problemas que enfrentavam no seu dia-a-dia, rogando a santa que intercedesse e ajudasse na solução dessas mazelas, entre elas, que seus filhos pudessem crescer e viver com saúde, a dificuldade financeira, a cura de uma enfermidade, e outras. Com as graças alcançadas, como forma de agradecimento e cumprimento, mandava rezar ladainhas. Como de costumes no local, quando se vai cumprir uma promessa, é comum haver uma mobilização na família e no entorno da casa, sítio ou terreno, ou seja, a vizinhança para juntos como forma de solidariedade e de união todos participarem desses atos, assim, estariam alimentado e reforçando sua devoção. Outra situação comum é a pessoa que estiver realizando o ato, conhecido também como o “festeiro(a)”, oferecer aos participantes um “agrado”, uma festa e/ou a alimentação, um “comes e bebes” embalado pelos ritmos da região, em nosso caso especial, pelo brega, o carimbó e outros ritmos. Claro que, conforme o tempo, esses rituais vão incorporando novos elementos. Dona Gitoca nos conta que as primeiras festas eram embaladas pela contratação de tocadores (violão, gaita e outros instrumentos), hoje, as festividades são animadas por grandes aparelhagens - equipamentos de som de alta qualidade, potência e tecnologia, e os ritmos são o tecno-brega, o calipso e forró eletrônico.
Pela sua devoção, pelas rezas ocorridas, a festividade ao longo do tempo foi ganhando corpo e dimensão, acompanhando o processo de desenvolvimento que o local vem alcançando, sobretudo nas principais atividades econômicas, cuja exploração de produtos madeiráveis e não-madeiráveis chega ao nível de exportação. Vale salientar que as festividades em homenagem à santa, acorriam na outra margem do rio, onde se realiza hoje a festa, e no local em que se estabelecia a residência da Dona Gitoca e sua Família. A expansão dos negócios da família fez com que houvesse mudança para a área que hoje é a sede da festividade. No novo local, a festa está na sua sexta edição. Dona Gitoca até hoje mantém a batuta na condução da família, dos negócios e da festa, assessorada pelos filhos que se organizam em função das tarefas. No caso das festividades, é montada uma comissão que tem a função de organizar e executar o evento. Os trabalhos dessa comissão começam logo que termina a festividade, no qual eles levam aproximadamente um ano, promovendo pequenas programações para angariarem fundos para a festividade em homenagem à santa.
Sentados na varanda da casa central da comunidade, um grupo de privilegiados lusos e brasileiros, em frente ao cais, cartão de visita e ponto de embarque e desembarque de pessoas e produtos, ouviu Dona Gitoca, um exemplo de vida, que carrega em seu semblante a garra de uma vencedora, traz consigo o espírito lendário das Amazonas - mulheres guerreiras, resistindo as marcas do tempo que não apagam seu brilho. Bem recente foi vitimada em um acidente, o qual causou algumas seqüelas, inclusive impedindo-a de se deslocar sem o auxilio de outras pessoas. Só que isso não foi e não será o suficiente de parar sua luta em prol da comunidade. Dona Gitoca esteve presente na condução da procissão fluvial, regendo com toda a sua maestria cada passo e etapas que se desenvolvem a festividade, iluminada pela sua fé inabalável, conduzindo cada momento com sapiência, simplicidade e serenidade. Tem a capacidade de questionar a mudança do modo de viver, da maneira de educar os filhos, do respeito à religiosidade, aplicando nas palavras que nos transportam ao íntimo, fazendo-nos perguntar o quanto ainda somos aprendizes de uma mulher que está formada pela faculdade da vida, escola essa que não se precisa fazer cursinho e nem vestibular, temos apenas que viver nossas vidas a seu ritmo e, de vez enquanto, sentar ao lado de pessoas como Dona Gitoca escutando suas palavras, seu coração e no final pedir-lhe à benção, dando um beijo de gratidão por ter vivido esse momento, único, de saber que a comunidade de Serraria Pequena, com sua Festividade em homenagem à Virgem de Nazaré, é uma referência cultural incorporada no calendário religioso da região. Hoje, conhecida mundialmente, pois neste exato momento, em alguma parte da Amazônia, do Brasil e /ou do Mundo, há de haver alguém acessando essas informações que falam da existência de uma mulher guerreira chamada Gitoca, numa comunidade por nome Serraria Pequena, onde se realiza a festividade em homenagem à Virgem de Nazaré e uns sonhadores que navegam pelo Amazonas e a rede mundial de comunicação, promovendo, difundido e contando a história de um povo.







