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O cinema implica numa subversão total de valores, numa desorganização completa da visão, da perspectiva, da lógica. É mais excitante que o fósforo, mais cativante que o amor…
Antonin Artaud

image Fiquei alguns dias sem poder escrever, aqui no Rio, trabalhando muito e, nos intervalos, participando do Festival Internacional de Cinema: 436 filmes de 60 países! É um auê. No ano passado vi quase 40 filmes, mas no momento não tenho essa disponibilidade. Como há oferta demais, fica difícil escolher, ainda mais porque há pouca divulgação acerca dos filmes. No fundo, a escolha acaba sendo meio aleatória, pelo nome do diretor, pelo título sugestivo ou nacionalidade. Como há uma escolha prévia, por parte da comissão julgadora, é difícil a gente errar redondamente, mas acontece. Por exemplo, fui trair meu dogma de não ver filmes franceses modernos e vi o badalado Cachê. O filme faz jus ao título, se graça ou talento há, permanece bem escondido e chegamos aos títulos finais sem descobrir a razão de ser de tal filme. Nem as presenças de Juliette Binoche, Daniel Auteil e da grande dama do teatro francês Annie Girardot, conseguem impedir o filme de soçobrar, levando com eles parceiros de quatro países: França, Áustria, Alemanha e Itália…

Fazer cinema é uma das atividades mais exigentes e trabalhosas que existem. Requer talento, paciência, obstinação. Tudo é complicado: descobrir um bom roteiro, trabalhá-lo bem, inscrevê-lo na Lei, encontrar patrocinadores. Às vezes essa fase dura anos. Daí vem a etapa seguinte: preparar locação, escolher atores, cuidar dos mínimos detalhes de uma produção e partir para a filmagem propriamente dita. Mais algum tempo para montá-lo, cuidar do som, lançá-lo. Por que desperdiçar tantos ingredientes num mau filme, com argumento capenga ou com atores canhestros?

Surpresa com os filmes brasileiros: o baiano Cidade Baixa, de Sérgio Machado, com Alice Braga, Lázaro Ramos e Wagner Moura e o pernambucano Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, com Peter Ketnath e João Miguel, este último meu amigo lá da Bahia em interpretação magistral. Ambos os filmes foram selecionados para o Festival de Cannes, onde receberam o Prêmio da Juventude e o Prêmio de Educação Nacional da França, respectivamente. Essas duas películas contrariam o lugar comum de que para fazer cinema basta sair por aí com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. São filmes inteligentes, bem construídos, que encantam e comovem o espectador. Cidade Baixa é a história de um triângulo amoroso e o segundo é um hino à amizade, esse afeto que os filósofos consideravam superior ao amor.

O Festival está chegando ao fim. Na quinta-feira serão anunciados os vencedores. É claro que já fiz minha escolha: filme nacional, Cinema, Aspirinas e Urubus. Filme estrangeiro, hors concours, Eros, filme em três episódios sobre amor e erotismo. O primeiro, The dangerous thread of things, de Antonioni, ambientado na Toscana, mostra a relação desgastada de um casal nessa bela região da Itália. O segundo, de Steven Soderbergh se chama Equilibrium e tem o ótimo Robert Downey Jr. como paciente de um psicanalista muito mais idiossincrático do que ele (gostaria de saber o nome desse ator. Quem me ajuda?). Mas o último, The Hand, com a linda Gong Li dirigida por Wang Kar-Wai, conta a história de amor mais delicada e comovente de todos os filmes que vi: um jovem alfaiate que cultiva um silencioso amor pela mulher – uma prostituta – para quem ele confecciona tênues e requintados vestidos, mostrando mais uma vez como o amor independe do objeto amado. Prêmio de originalidade eu concederia ao filme Carmen na África, de Mark Dornford-May. A Carmen, de Bizet ambientada na África do Sul atual, só com atores negros e o grupo de música lírica africana Dimpho Di Kapane, filme que obteve o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2005.

Acho que essa é a face boa de se morar num centro grande. Há muita oferta de espetáculos e, para compensar a violência nas ruas e a impessoalidade das relações, ficamos antenados com o que se passa no imaginário de 436 diretores, de 60 países do mundo inteiro…


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