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TT Catalão

No primeiro ponto – Afuá – o porto de partida do barco que incentiva o olhar local no registro e expressão da sua própria história e visita o sítio arqueológico da Vila Tessalônica no Araramã.

imageA surpresa de uma cidade sobre duas rodas cresce quando você percorre as passarelas, sobre as marés de cheias e vazantes, e percebe o cotidiano. As ruas estão cheias para confirmar a vocação natural do lugar para uma conversa aberta de extrema gentileza. A vendedora de hortaliças é um exemplo dessa marcha entre a sobrevivência do trabalho (ter que vender seus pés de cheiro a R$ 0,50) e paradinha para colocar a conversa em dia com cada cliente. Sempre no começo da frase um “bom dia, vizinho (a)”. E lá vai um bom pedaço da manhã na atualização dos assuntos. Incomoda o serviço de alto-falante que impõe uma trilha sonora em um volume que fica difícil saber se o pessoal aceitaria se chance tivesse para optar.

Vida que segue. E ninguém esquenta se o prazer aumenta. Das passagens fica um sabor de rambla catalã em Barcelona pelo relaxamento natural dos risos e conversa boa. Orgulham-se do título “a Veneza marajoara”. Completa a paisagem a magnífica beleza morena das mulheres nesta benção mestiça entre índios, negros e brancos. Ao turista que teime em parar no meio da passarela para achar o melhor ângulo da foto assuma certo risco de levar uma cacetada de bicicleta tal o volume de trânsito no pedal.

Frestas

Surpresa, que só se revela quando se entra mais fundo nas bordas do centro, é ver os quintais frondosos – imaginem a fertilidade de um terreno constantemente alagado de húmus. Pelas frestas dos becos, entre as casas, criam-se túneis escuros, molduras com muito verde, para ao fundo revelar a frondosa paisagem interior. Da convivência fácil e a conversa ótima confirma-se a imensa abertura do pessoal para o convívio. A maioria quer saber que se “o barco abre a que horas” e “que diabo de Ponto de Cultura é isso”. É o grande lance do Programa Cultura Viva: o Estado reconhece o que já é ponto cultural de fato, por isso, quem já vive a coisa sempre se pergunta como será a vida quando ganhar um crachá e virar ponto conveniado pelo governo. E por isso que o Programa só se legitima não, apenas, capacitando e depositando recursos e ferramentas nos pontos naturais, vivos, de cultura: precisa pontear, estabelecer pontes entre os pontos, tramar a rede. Tecer pelo coletivo dos nós.

Panela de pressão

imageimage Afuá tem limpeza flagrante com coleta de lixo separada. O esgoto, sempre ele, precisa
ser resolvido melhor. O mais impactante na Amazônia é o problema da água potável com tanta massa de água disponível. Os usos da água estão na raiz dos hábitos e o pior deles ainda é a estupidez dos dejetos no leito do rio como se a beleza incomodasse tanto que precisássemos profaná-la. Tarefa boa e mais desafio para o barco que, aoa adotar o conceito amplo de cultura, jamais negligenciaria o meio ambiente.

A urgência de uma parceria com o Ibama é flagrante. Os fiscais têm dificuldades de transporte e o escritório na região foi desativado. São arquivos vivos pelo tanto que conhecem as áreas ribeirinhas. Hospedados na Pousada do Selado, em um café da manhã, eles já haviam apreendido dezenas de tartarugas e improvisado uma área até o dia em que pudessem devolvê-las na Ilha dos Camaleões (1h30min de barco) um ponto de desova importante. Além de ser um prato cobiçado na região os quelônios passam por uma tortura fatal antes de virarem sopa: o casco duro, defesa contra predadores na natureza, impõe que sejam jogados vivos, por 30 minutos, na panela para amolecer a capa. A biologia não criou defesas contra a panela de pressão. Só resta a defesa humana.

Seu Selado

image Esta Pousada leva o apelido do seu dono, antigo trombonista nas noites cariocas, aposentado radical (”quem quiser se divertir que compre um macaco”), sendo conhecido como Selado por conta de uma escoliose capaz de dar a impressão que algo colou suas costas e a desviou do curso. O apelido foi obra “do maior apelideiro de Afuá”, o famoso Palha Seca. Meio de vingança, seu Selado proclama “o rapaz já morreu e tinha cara de morcego e se ele andou bem, agora, está do inferno pra frente”.

A alguns metros da Pousada (decentes R$ 20 de diária) está a cadeia pública de Afuá com o maior fluxo de contato entre presos e sociedade que o Brasil conhece: fica à beira de uma passarela movimentadíssima e o papo é animado entre o pessoal e a rapaziada nas grades. São 16 presos em duas celas. Sacam a minha estranheza de estrangeiro e conversam animados. Juram que “não fizeram nada”: “estávamos na igreja rezando, daí o padre não gostou da nossa reza e…”, arrisca um mais engraçadinho. Pedem cigarros.

Poderia ser da marca Bacana. Ao sentir o cheiro desse estrupício fico em dúvida se o Controle de Drogas não deveria interditar a marca baratíssima, R$ 1. Decido por dois maços de Carlton. Ao sacarem a embalagem na minha mão fazem a festa. Entrego os maços ao policial que comenta para eles: “ihh, vai cair os dentes fumando isso”. Taí uma experiência correcional no sistema penitenciário brasileiro que merecia algum estudo. Nem precisa de revista para impedir a entrada de celulares. A comunicação é livre. O direito de expressão é total. Bendita Afuá.

Maestro Nélio

image De volta ao barco tento comer um camarão e fico frustrado (na noite anterior não conseguimos encontrar nada aberto depois da meia-noite). Passo pelo Lagostão, o centro cultural onde rolou a festa da galera local, e lá está o maestro Nélio há três anos e meio ensaiando 18 meninos, entre 9 e 12 anos, da Banda do Maestro Lavico criada há 40 anos. É uma aula de sopro, com partituras. O Nélio leva o projeto na marra e lamentou não ter se apresentado na noite anterior para a comitiva do MinC: não tinha palhetas para os instrumentos. Ele alfabetiza musicalmente os garotos e troca partituras com outra banda de Anajás (localidade próxima) e um site na internet que o salva (seu telefone para contato é 6891368). Está entusiasmado em ser Ponto de Cultura, pois o que mais deseja é trocar informações e a “chance de escutar mais coisas, tocar em outros lugares e trazer gente de fora pra tocar aqui e assim trocar, tudo junto”. Está no espírito do Cultura Viva: rede de circuitos, acesso ao que informa e forma. Ele quer mexer no repertório com a inclusão de guitarra, baixo e teclado. Um exemplo individual da mesma “fome” por informação aprendo com a pequena Júlia que fica inteiramente absorta lendo o caderno de notas do armarinho LJ Variedades da mãe. A mãe diz que ela é louca por livro “com figuras”. Tem poucos. Afuá precisa de biblioteca, mesmo!

image O secretário Célio Turino, no debate na Câmara, foi quase um missionário ao detalhar o conceito do Programa e as etapas do processo. Nélio tinha visto e comentou “sem organização a gente não chega lá!”. E para quem acha que um cyberibeirinho é ficção é só passar pela travessa Joaquim Matias, 23: jogos em rede. E não pense que é jogar gameboy refastelado em uma rede de armar: é conexão, mesmo!

Dentro e fora

image Ao lado do Lagostão, Jô toca a única locadora (prevalecem DVDs) na cidade sem cinema. Ela resume que os sucessos são os filmes de ação estrangeiros. Queria ver outras coisas, “mas não chega”. Comento a forte influência da TV no espetáculo de dança e roupas dos mais jovens. Ela faz a carinha, sem comentário, no tipo “fazer o quê?”. A não-reação de Jô é um belo desafio do Programa no sentido de se ampliar o trânsito e a consciência do valor cultural dos mais velhos para criar diálogos com a galera e misturar caminhos entre a tradição e as influências naturais da mídia. Nem tanto só o tan-tan do tambor rude, nem tanto só o sintetizador pobre dos remelexos precocemente erotizados pelo massacre aberto na era-Xuxa.

Muito trabalho para o secretário de Cultura, o Sarito, fazer este mapeamento de todas as expressões locais sem discriminar estética e faixa etária e assim o Ponto esteja pronto para todas as linguagens e expressões de Afuá.

Cine Afuá

Jorge Bodanzky inicia uma oficina para um documentário feito pelo olhar de sete jovens, entre 10 e 18 anos, da Escola Municipal Leopoldina Guerreiro, da 5ª Série ao 2º Ano do Ensino Médio. Bodanzky, quando o barco visitou o sítio arqueológico da Vila Tessalônica de Araramã, também documentou o local pelo olhar de duas adolescentes. O material será editado no laboratório do barco com o acompanhamento dos jovens.

O sítio de Araramã precisa de mais recursos para a intervenção imediata dos técnicos e pesquisadores (trabalho iniciado pelo Museu Goeldi) para um levantamento mais profundo e tratamento do material coletado, pois a erosão e velha rapinagem externa já dão baixas em peças de valores inestimáveis para a cultura marajoara e a história das origens desse povo.

image Afuá respira, como o boto que lhe empresta o sopro, do nome. Pode ser sufocada pela tal “modernidade” um ponto que se traça o desenho.

No próximo e último relato: os caminhos da Macapá urbana e os batuques do Marabaixo dos quilombos de Lagoa dos Índios e “sabência” do Mestre Sabá no quilombo Curiaú: “ninguém vem ao mundo à toa, ninguém é incapaz, se não é bom pruma coisa é bom pra outra”.


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