Matéria publicada no jornal Folha do Amapá no dia 09/09/2005.
Fernando França
Quem imaginaria que um dia os hábitos culturais da Amazônia, ou pelo menos de parte dela, estariam disponíveis ao mundo quase que em tempo real? Pois é. Isso já está disponível no site www.navegaramazonia.org.br Esse é portal do Projeto Navegar, um barco com comunicação online cuja proposta do programador José Roberto Lacerda e do cineasta Jorge Bodanzky é mostrar ao planeta toda a diversidade cultural das comunidades ribeirinhas das margens do Rio Amazonas e seus afluentes.
Apoiado pelo Ministério da Cultura (MinC), o barco vai dar suporte ao projeto Cultura Viva, uma rede nacional de organizações culturais criadas para o desenvolvimento e a gestão cultural chamadas de pontos de cultura. Ou seja, o Navegar pela região vai permitir o estabelecimento de novos pontos de cultura.
A viagem inaugural do Navegar ocorreu no período de 5 a 10 de setembro ao município de Afuá (no Pará, a 87 Km da capital do Amapá, Macapá, de onde partiu o barco) e vai atender, inicialmente, outras duas localidades: Bailique, arquipélago ao leste do Amapá, e o município de Abaetetuba, na região do Baixo Tocantins, no Pará.
Levou a bordo, além do corpo técnico e imprensa, o secretário de Projetos Culturais do MinC, Célio Tourino, cuja leitura sobre o Navegar é a de que o projeto é estratégico para a consolidação dos pontos de cultura na distante Amazônia, e o jornalista TT Catalão, assessor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Oportunidade inédita
O Navegar partiu na tarde de segunda-feira, 5, do porto do Canal do Jandiá, enfrentando uma batalha com as águas agitadas pelo verão de setembro, rumo à cidade de Afuá. Lá, cerca de 300 pessoas, incluindo, o prefeito e a primeira-dama, Mazinho e Kelly Salomão, esperavam a chegada do projeto.
De imediato, o Navegar já foi mantendo contato com as manifestações culturais do local numa recepção organizada no principal clube da cidade, o Lagostão. Na manhã do dia seguinte, terça-feira, foi apresentado à comunidade em seminário, ocorrido na Câmara Municipal. À tarde, o projeto foi visitado por estudantes e lideranças da comunidade.
Para a primeira-dama de Afuá e secretária de Educação, o Projeto Navegar tem importância ímpar não só no seu município, mas também em toda a região do Marajó, onde o acesso só é possível através da navegação:
É uma oportunidade maravilhosa não só para os estudantes, mas todo o povo da região estabelecer uma troca de conhecimentos, já que o acesso da região ao mundo da internet é muito difícil definiu a secretária.
Se para a secretária Kelly Salomão o Projeto Navegar é uma oportunidade maravilhosa, para Jorge Bodanzky, um dos autores do Navegar, é a oportunidade de inserir a cultura da região no contexto da internet e da programação de televisão, já que o projeto inclui, ainda, a formatação de um programa sobre a diversidade cultural ribeirinha para alguns canais abertos de televisão:
Nós vamos gerar conteúdos tanto para a internet quanto para janelas de alguns programas de televisão esclarece o cineasta.
Em Afuá foi realizada coleta de dados sobre as danças típicas da região, o tradicional desfile escolar de 7 de Setembro e de um sítio arqueológico encontrado próximo à cidade.
Trajetória - O Navegar é um projeto surgido em meados 1999, dentro Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá (PDSA) instituído pelo então governador João Capiberibe, no período de 1995 a 2002. Nesse mesmo ano, o que era apenas um projeto de suporte a um programa de governo transforma-se numa Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) para garantir a continuidade do projeto que até então vinha desenvolvendo ações na área de inclusão digital, resgate e identificação cultural da região do Arquipélago do Bailique.
O trabalho era realizado em parceria com a Escola Bosque (também localizada naquela região), uma experiência positiva do PDSA, hoje esquecida pela atual administração do Estado do Amapá.
O apoio do Ministério da Cultura ao Navegar é para que ele integre o projeto Cultura Viva na identificação e concepção de pontos de cultura na região da Bacia Amazônica, inicialmente:
Mas é um apoio temporário informa Jorge Bodanzky, e completa:
Antes havia um programa de governo por trás do projeto, agora temos uma proposta que são os pontos de cultura que ainda é incipiente. Então o Navegar está sozinho. Ele vai ter que criar suas próprias condições de trabalho, desenvolver seus programas. Embora a responsabilidade seja a mesma da primeira fase, será mais difícil agora porque nós dependemos de nós mesmos. A ajuda do MinC é importante porque permitiu a retomada, mas não é permanente. Nossa responsabilidade no momento é rapidamente nos estruturarmos para dar continuidade a isso conclui.
Barco digital - O barco do Projeto Navegar é construído em madeira tipicamente como as outras embarcações que navegam pela Região Amazônica. Sua adaptação é somente para atender as necessidades de trabalho da equipe técnica.
Possui sala de comando e laboratório de informática na parte superior, refeitório e alojamento na parte inferior e o porão é reservado para a armazenagem de alimentos não perecíveis, materiais de limpeza e sala de máquinas motor de propulsão, geradores e baterias de energia.
Possui ainda rede elétrica com três sistemas distintos, sendo cada um deles destinado a atender o laboratório de informática, iluminação das dependências da embarcação e aparelhos elétricos e o porão voltado exclusivamente para a iluminação e aparelhos de segurança do barco.









