Hoje estamos saindo de Afuá, de barco, para Araramã, também conhecida como Vila Tessalônica. São 11:30 da manhã e só pudemos sair agora, esperando a maré favorável. Aqui tudo é regido por ela, não adianta querer se antecipar ou desrespeitar as leis da natureza.



Como era feriado, 7 de Setembro, a cidade estava em festa, com todas as suas bicicletas e bicitaxis nas ruas e aproveitamos a manhã para registrar o desfile das crianças e dos jovens da cidade.
Posso dizer tudo, menos que a minha vida com o Jorge seja monótona! Estou escrevendo da parte superior do barco, equipada com 10 computadores, laptops, ar condicionado, vendo o rio Amazonas, imenso, deslizar sob os meus olhos. Ver o rio e a floresta pela primeira vez é um choque estético. Por mais que tenhamos informações prévias, por mais dados e ilustrações a nosso dispor, a nossa escala é sempre menor, comparada à magnificência da selva.
Não sei se vocês se interessam por este relato, mas suponho que sim, daí ter inaugurado esta seção. De qualquer modo, estou fazendo um registro dessa experiência extraordinária que é conhecer a Amazônia, com seus rios e florestas inimagináveis… Ao mesmo tempo fico expectante, certa de que terei respostas ou perguntas das pessoas que acessarem nosso site.
Só chegamos à vila de Tessalônica, no rio Araramã, que contém um sítio arqueológico de aproximadamente 1400 ou 1200 anos, às 16h., portanto após mais de quatro horas e meia de viagem, no meio do rio, entre as árvores.
A vila se desenvolveu a partir de um núcleo religioso evangélico, há 28 anos atrás. Casas enfileiradas, também de madeira, muitas crianças, professores de outras regiões.

A jovem professora que entrevistamos, Dinair Fernandes, dirige 6 escolas e supervisiona, de barco, outras 23 escolas da região. Nada parece ser obstáculo para quem tem o desejo de fazer alguma coisa séria.
A comunidade vive da madeira, da extração do palmito e todos se alimentam do que pescam e caçam e dos produtos trazidos das cidades próximas. Todos pareciam muito bem, saudáveis, com as crianças sem sinais aparentes de desnutrição. Perguntei a uma linda menininha de sete anos o que ela comia e ela enumerou: açaí,peixe, camarão, paca, veado…Nada de danoninhos e Mc Donalds por estas bandas…
Após uma visita à sala de aula, que é a escola inteira, onde vimos uma maquete construída pelas próprias crianças do que seria o desenho ideal da sua pequena vila, abrimos o laboratório do barco à visitação da comunidade e eles puderam ver imagens que fizemos deles próprios, naquele momento, do Afuá, com suas danças e o desfile. Eles pareciam encantados com a novidade…
A intenção do Jorge era entregar uma câmera de vídeo aos jovens, para que eles produzissem um pequeno vídeo, com cenas do vilarejo, e assim foi feito: ele pediu a duas mocinhas que filmassem o que achassem interessante (tipo repórter por um dia, mal comparando…). Elas saíram, com nossa equipe registrando em fotos e vídeos a filmagem que elas iam realizando. Após uma hora, elas retornaram com a missão cumprida: um filmete meio tremido, porém muito vivo e interessante que, emocionados, vimos junto com eles. Choramos, de tanta alegria! É essa a função do Navegar, um projeto de comunicação que leva às comunidades ribeirinhas a possibilidade de conhecer e utilizar as novas tecnologias da informação.
Agora estamos fazendo o caminho de volta, por entre furos e igarapés de uma beleza indescritível e o percurso desta vez será mais curto (cerca de duas horas e meia).

O sol já declina e o calor também. A paisagem é deslumbrante e os fotógrafos da equipe só fazem gritar de entusiasmo, correndo de um lado para outro do barco, em busca dos melhores ângulos para fotografar o mais belo por-do-sol jamais visto por qualquer um de nós!
Fico pensando no contraste existente entre esses dois Brasis: de um lado o Sul, com suas cidades de primeiro mundo, dinheiro e progresso, um excesso de ofertas, mas com baixa qualidade de vida e de outro o Norte, com cidades e vilarejos incrustados na natureza, pouca circulação de dinheiro, negligência e abandono por parte do poder público, mas com um espaço para a delicadeza e a solidariedade. É fácil, como vimos, ensinar as novas tecnologias aos ribeirinhos. Eles são inteligentes e aprendem tudo com uma rapidez extraordinária. Muito mais difícil será ensinar aos jovens sulistas que existe sim a possibilidade de se construir uma sociedade mais igualitária e justa e que, quase sempre, a alegria de viver é constituída por coisas que o dinheiro não compra…








